Cantiga da onda e da espuma
Onda do mar, onda bela,
que se ergue, cresce, encapela,
e de espuma se coroa,
- palpita, intrépida e viva,
depois, se recolhe esquiva
e se desfaz e esboroa...
Valeu crescer, se atirar,
na ânsia de asa que não voa...
Destino de onda do mar
- não se atirou à toa!
A glória de ser onda e ser onda somente
tecer espumas, desfazer espumas,
nas águas inquietas...
(As ondas sem espumas seriam como noites sem astros;
as florestas sem rios, os jardins sem flores,
as paisagens sem cores
ou o mundo sem poetas!
Como bocas sem sorrisos
ou como flores sem mel,
ah! as ondas sem espumas, não seriam ondas,
como o céu sem estrelas não seria céu!
Sem espumas das ondas, nem a praia seria
praia sequer,
seria somente, areial ondulante, vazio,
como um corpo morto, frio,
de mulher...
Ah! as ondas sem espumas não seriam ondas
como as matas sem fontes e as florestas sem rios
seriam um sepulcro em silencio profundo,
- como o mundo sem poetas
não seria mundo!)
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O coração é onda feita
por misteriosa mão,
e o sonho, e a espuma que enfeita
o vaivém do coração!